Um pouco sobre Museologia

"Museu não coleta coisas; museu coleta a poesia que está nas coisas." Cury, 31




Museu, como descrição de uma estrutura física, é o tema mais abrangente criado pelo homem. Porque no mesmo contexto temos museus de arte moderna, arte clássica, arte naif, de história natural, de história nacional, de geologia e etc. Como podemos dar o mesmo nome para uma estrutura que trata de tantos temas? Qual é a semelhança entre eles? Vamos ver um exemplo; A semelhança entre o Museu Do Prado e o Museu Egípcio de Turim. Não são apenas semelhantes porque são dois museus europeus que mostram obras de arte. Tanto o Museu do Prado e o Museu Egípcio de Turim são museus que vivem uma memória nacional. A semelhança está em como essas obras foram selecionadas e expostas. Não na forma de exibição, porque cada museu tem a sua estrutura física, muitos deles foram prédios com outras funções (ou seja, foram prédios construídos para outros fins e que acabaram virando museus mais pra frente) e por causa disso não se pode mexer na estrutura do prédio (para não perder a memória da estabelecimento anterior ou para evitar o seu desmoronamento).
No caso do museu espanhol; a maior parte do seu acervo são obras feitas por artistas espanhóis, o que alimenta a ideia de nacionalismo espanhol naquele país. É quase de conhecimento público que os espanhóis são muito orgulhosos de sua origem, mas nem sempre se reconhecem como um povo único. Lá temos cinco províncias de culturas muito fortes.
No caso do museu italiano; são obras egípcias que foram, a maior parte, coletadas por Ernesto Schiaparelli e Bernardino Drovetti (arqueólogos e egiptólogos italianos). O museu revive uma época em que parte da Itália pertencia a França (na época de Napoleão, principal investidor das primeiras pesquisas arqueológicas no Egito) e uma época mais antiga ainda quando os Romanos dominaram o Egito. Além disso é o principal museu da cidade de Turim e o maior museu egípcio fora do Egito.
Agora não parecem mais museus tão próximos. Voltando a afirmação "A semelhança está em como essas obras foram selecionadas e expostas. ". A reserva técnica de qualquer museu guarda infinitamente mais objetos do que a própria exposição. Qual é o critério para selecionar esses objetos? Isso depende de cada objeto. As vezes é um momento mais propício você exibir tal coisa ao invés da outra. Talvez algum dia As Meninas sejam retiradas da exposição porque não é mais uma representatividade do povo. Como um objeto pode expressar tanta informação? Isso vai depender da forma que a informação é exibida.
A organização da sala de exposição, a vitrine e a iluminação são acessórios para expressar a poesia que existe dentro do objeto. Como o quadro As Meninas; está em uma sala octogonal com duas entradas nas laterais traseiras e o quadro está colocado bem no centro da visão de quem entra e olha para frente. No museu de Turim temos uma ala inteira com esculturas clássicas egípcias (esfinge, faraós sentados no trono, guerreiros e etc) organizadas em uma sala escura com iluminação local (em cima das esculturas, ou seja, só iluminando aquela área). Além disso as esculturas estão organizadas simulando um templo egípcio; esfinges na frente, guerreiros, escribas e no final o Faraó. Essas duas organizações diferentes refletem a mesma proposta; extrair a poesia das obras e incentivar a curiosidade do público. Colocando As Meninas na linha da visão, faz você ser atraído direto para elas. Colocando a iluminação escura com os pontos de luz cria um "ar de mistério na sala" e o pensamento comum nos leva a ver no Egito antigo como uma época de grandes mistérios e magia da história humana.
Portando, o objeto tem a sua própria poesia e cabe ao museu expressar ela da melhor forma possível. Mas não é somente o objeto que está no acervo que tem poesia, todos os objetos tem a sua poesia. O museu que analisa se o seu potencial tem como ser explorado ou não e então ele o recolhe para o seu acervo ou não.
Concluindo; Museu é um tema abrangente no ponto de vista superficial, porque a proposta de todo museu é construir um palco digno para que o objeto possa ter a sua poesia explorada. Mesmo que o tema do museu de Turim seja completamente diferente do tema do museu de Madrid, os dois souberam organizar a sua exposição. A maior semelhança entre eles está na intensão de exibir a poesia das suas coisas.

Um comentário:

restaurador kronemberger disse...

gostei muito da narativa sobre museus! trabalho nessa area ,muito interessante ,gostaria de ver +sobre o museu de turim