O dia em que eu recebi um 'dessorriso'

Hoje em dia receber uma gentileza é estranho. Ficamos assustados quando alguém fala conosco na rua, a primeira vista sempre achamos que é um assalto. Mas quando você se toca é apenas um "bom dia" ou "Adorei a cor do seu cabelo". Tratamos a gentileza como algo anormal, achamos que a pessoa que nos sorriu por nada deve ter feito amor antes de pegar o ônibus lotado.

Eu luto contra isso. O mundo está cruel demais para tratarmos os nossos iguais com desprezo. Seja iguais no nosso trabalho, faculdade ou companheiros de transporte público. Já 'competi' para dar o meu lugar para um velhinho. Já elogiei uma estranha porque gostei da roupa dela. Já abracei várias pessoas porque usavam uma blusa de um seriado que eu gosto.




Um dia recebi o oposto da gentileza, o oposto de um sorriso. Recebi um 'dessorriso'. Espero que vocês entendam a história;
Entrei no ônibus e reparei em um rosto, mas não tive certeza de quem era. Sentei em um banco no corredor. Um tempo depois,  faltando um bom caminho ainda a percorrer, vagou o banco da janela do lado desse rosto. Gosto de ver a paisagem e fui tentar sentar ali. Pedi passagem. Fui ignorada. Pulei as pernas que pertenciam ao rosto. O rosto de levantou bruscamente e foi para fora do ônibus. Lembrei de quem se tratava. Era uma mulher, já nos seus trinta anos, que segundo ao seu julgamento eu a tinha prejudicado moralmente e gravemente. Esse acontecimento, no qual eu a prejudiquei, foi a um ano e foi supostamente resolvido.

Agora eu lhes pergunto leitores; será que foi tão grave assim o que eu fiz? Todo assassino lembra das suas vítimas. Todo ladrão lembra do que roubou. Ela não perdeu dinheiro e nem propriedades e não teve nenhum direito natural impedido por minha causa. Eu não lembrava do rosto dela e nem da voz dela. Além disso, o fato ocorreu a um ano atrás. Mas sabe o que mais me deixou em reflexão? Fiquei preocupada com as crianças dessa mulher.

Ela tem dois filhos pequenos que vão ter como maior exemplo da sociedade uma mulher fraca e rancorosa que fica remoendo uma lembrança remota para a própria culpada do trauma (no caso, eu). Nem eu me lembro do que eu fiz para ela. Como eu consegui traumatizar uma alma dessa maneira e consigo dormir tranquila? É porque o que aconteceu foi um caso pequeno que foi gigantizado. Eu sentiria vergonha se a minha mãe fizesse uma coisa dessas com ela mesma. Claro que agora eu sou crescida e posso separar o que é bom exemplo para mim e o que é mal exemplo para mim. Mas crianças pequenas absorvem tudo. O que é mais frequente é melhor 'plantado' no inconsciente delas. Essa moça está criando sem perceber dois futuros paranoicos.


Por isso leitores, repensem seus traumas. Será que eles são realmente traumas? Será que foi sério? Você não seria muito mais feliz se simplesmente seguisse com a sua vida? Façam isso principalmente se vocês planejam ter filhos, porque os seus defeitos são os que mais marcam as crianças. Ainda mais nessa sociedade em que valorizamos mais os erros do que os acertos das pessoas.

E usem camisas de Doctor Who, gosto de abraçar pessoas que usam camisas de Doctor Who.

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